*Por decisão do autor, os textos estão escritos
de acordo com
a antiga ortografia.

Sétima
Quadra:
“Gentes”
Na calma aparente
de mais um dia
gente como à gente
sarcasmo e ironia
curva descendente
profunda agonia
caminha descrente
na noite vazia.
‘Mas se a vida é intransigente
a “gente” porfia
planta a semente
poderá ser alegria’.
Gente como à gente
da “gente” arredia
não se mostra indulgente
quem caminha outra via.
Que feliz e contente
cada qual sua mania
deve andar toda a gente
noite e dia, noite e dia!
Jorge Humberto
Santa-Iria-da-Azóia -
Portugal - 31//12/2024


Oitava
Quadra:
Em benefício da dúvida
Esforço-me, para não adormecer,
cedem as pestanas ao obscurantismo.
E, às tantas, sinto-me a ceder,
à vontade leviana do secretismo.
É como se me sentisse a enlouquecer,
num tal cómico dramatismo,
que me levasse a esquecer,
toda a minha onda de civismo.
Aquieta-se o café, cigarros a perder:
toda a força inicial do tabagismo.
Horas depois, depois do entorpecer,
volto a mim, em caos e terrorismo.
Hospitais e médicos, querem lá saber -
não é isto uma forma de panteísmo?
Se vou ou não vou mais sofrer,
contra toda esta gente e eufemismo,
é um livro que lêem quando lhes dá prazer,
todo ele atípico, e cheio de pessimismo?
Que posso então eu aqui fazer,
se isto não passa de voyeurismo?
Deixar-me ficar, de vez adoecer,
num absoluto desperdício de consumismo,
engordando, vendo-me desvanecer,
ou bramindo minha espada, dar-me benefício?
Jorge Humberto
Santa-Iria-da-Azóia -
Portugal - 29//09/2024


Nova
Quadra:
Logo vemos!
Só de imaginar
uma flor à janela
me ponho a sonhar
sonhando com ela.
Pode haver muitas -
fértil imaginação.
Só algumas fortuitas
apelam ao coração.
Flor de saia a rodar
no jardim ostenta
folhas, a derramar
olores que fomenta.
Uma criança brinca
uma outra observa
o mundo que trinca
numa maçã que à boca leva.
Não sei aonde
tinha esta poesia
ou quem responde
nesta hora tardia…
mas, a dada altura,
a mim já devia
alguma fartura
que a alma escondia.
Jorge Humberto
Santa-Iria-da-Azóia -
Portugal - 25/02/2025


Décima
Quadra:
Lua Luana
Não sei que me deu
estava eu à janela
e o olhar se perdeu
estava eu a pensar nela.
Já tinha reparado
meu ser abstraído
numa pessoa em separado
com um ar bem divertido.
Em silêncio a buscava
mas não me atrevia
em dar-lhe uma palavra
seu nome, qual seria?
Nome de uma flor
quem sabe de uma estrela.
Mas seja ele qual for
sua graça hei de sabê-la.
Passaram-se os dias
gritava o meu coração.
Se me visses, que dirias
ao estender-te a minha mão?
Sou pessoa doce como o mel
e se alguém por mim chama:
Alexandre Daniel,
tu serás, a minha Luana!
Jorge Humberto
Santa-Iria-da-Azóia -
Portugal - 04/03/2025
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